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A Ordem Fixa das 31 Funções de Propp

Num livro de 1928, um folclorista russo mostrou que 100 contos de magia repetem 31 ações numa ordem que nenhum deles quebra.

Ilustração de conto de magia russo com cavaleiro, dragão e floresta escura

Cavaleiro e dragão de um conto de magia russo

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Toda oficina de escrita escuta a mesma defesa de quem chega com um conto travado: “Não sigo fórmula, minha história não se parece com nenhuma outra.” A frase erra de endereço. Num conto, quase tudo pode mudar de nome, de cor e de lugar, e a ordem das ações continua presa a um esqueleto mais velho do que qualquer autor.

Faça a prova com duas histórias de infância. Na primeira, um dragão leva a filha do rei; um rapaz parte, ganha uma espada encantada de um velho, enfrenta o monstro e volta para casar com a princesa. Na segunda, um pássaro de fogo rouba as maçãs de ouro do rei; o caçula sai atrás dele, recebe a ajuda de um lobo, vence o ladrão e volta com o prêmio.

Troque o dragão pelo pássaro, a espada pelo lobo e a princesa pelas maçãs, e a sequência continua de pé: um dano, uma partida, um presente mágico, um combate, uma volta. Agora tente mexer na ordem. Ponha o presente depois do combate, ou a volta antes da partida, e a história desaba, com todos os personagens ainda em cena.

O folclorista russo Vladimir Propp transformou essa prova em método. Leu cem contos de magia (os contos de fada russos, com dragão, bruxa, objeto encantado e reino distante), anotou cada ação que fazia a história andar e chegou a uma lista de 31. A regra mais estranha apareceu em seguida: um conto pode pular qualquer item da lista, e os itens presentes chegam sempre na mesma ordem.

Para quem escreve, o achado funciona como ferramenta de conserto: quando uma cena não rende, o defeito costuma estar na posição dela, e a lista mostra qual ação o leitor espera naquele ponto.

A Desmontagem abre o livro de 1928, apresenta o homem que o escreveu e mostra o trecho em que ele separou, em quatro contos diferentes, o que muda do que se repete.

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I  A Desmontagem

Uma águia, um cavalo e um barquinho

 
 

O livro saiu em Leningrado em 1928, chamava-se Morfologia do Conto e trazia a assinatura de Vladimir Iakovlevitch Propp, nascido em São Petersburgo em 1895, numa família de origem alemã. Formado em filologia russa e alemã (o estudo das línguas pelos seus textos), Propp dava aulas de alemão em escolas da cidade.

O material vinha de uma coletânea clássica. Entre 1855 e 1863, o folclorista Aleksandr Afanássiev publicou os Contos Populares Russos, quase 600 histórias recolhidas em várias regiões do império. Propp separou dali uma série seguida de cem contos de magia.

O alvo dele era a classificação. O índice mais usado na época, publicado em 1910 pelo finlandês Antti Aarne, agrupava contos por tipo de enredo; outros estudiosos os separavam por tema. Propp achou o critério frágil: o mesmo conto cabia em duas gavetas, e dois contos quase iguais caíam em gavetas diferentes só por trocar o bicho.

A resposta veio da botânica. O termo morfologia (o estudo das formas e do encaixe entre elas) vinha de Goethe, que o usou para descrever plantas, e Propp abriu capítulos do livro com frases do poeta alemão. A ideia era descrever o conto como se descreve uma flor: pelas peças e pela relação entre elas.

A peça escolhida foi a ação. No capítulo sobre o método da Morfologia do Conto, de 1928, Propp alinhou quatro trechos de contos diferentes, e os três primeiros mostram o mecanismo: “Um czar dá uma águia a um valente. A águia leva o valente para outro reino. Um velho dá um cavalo a Súchenko. O cavalo leva Súchenko para outro reino. Um feiticeiro dá um barquinho a Ivan. O barquinho leva Ivan para outro reino.”

O quarto trecho traz uma princesa, um anel e os rapazes que saem dele para carregar Ivan. Logo abaixo, Propp escreveu o resultado: os nomes dos personagens mudam, e com eles os atributos, e as ações continuam as mesmas. Nos quatro casos, alguém recebe um meio mágico e é levado para outro lugar.

Propp chamou cada passo desses de função e definiu o termo numa frase: o ato de um personagem, considerado pela importância que tem para o andamento da ação. A definição tira o personagem do centro. Conta o efeito do ato sobre a história, e quem o pratica vira peça trocável.

Cada função ganhou uma letra ou um sinal, e um conto inteiro passou a caber numa linha, escrito como fórmula de química.

Propp mediu o conto pela ação: quem entrega o presente muda de conto para conto, e o passo que o presente cumpre na história se repete.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

A fila dos 31 passos

 
 

As funções formam uma fila. Propp resumiu o achado em quatro teses: as funções são as peças constantes do conto, o número delas é limitado, a sequência delas é sempre idêntica e todos os contos de magia pertencem a um só tipo de construção.

A fila começa com sete funções de preparação: um membro da família se afasta de casa, o herói recebe uma proibição, a proibição é quebrada, o vilão sonda a vítima, obtém a informação, arma um ardil, e a vítima cai nele.

A oitava é o motor da história: o dano. O vilão rapta, rouba, enfeitiça ou expulsa alguém da família. Nos contos sem vilão, Propp anotou a variante da carência, quando falta algo à família: uma noiva, um objeto mágico, dinheiro.

Da nona à décima nona função corre o miolo. O herói sabe da desgraça, decide reagir e parte, encontra o doador (quem testa o herói e lhe entrega o meio mágico), passa pela prova, recebe a ajuda, é levado ao lugar do objeto procurado, enfrenta o vilão, ganha uma marca, vence e repara o dano.

As doze últimas cuidam da volta. O herói regressa, é perseguido, se salva, chega em casa sem ser reconhecido, encontra um falso herói reclamando a façanha, recebe e cumpre uma tarefa difícil, é reconhecido, vê o impostor desmascarado, ganha nova aparência, assiste ao castigo do vilão e se casa.

Os contos raramente percorrem a fila inteira. O do dragão pode ir direto da vitória ao casamento, sem perseguição nem impostor. Propp registrou o efeito desses saltos: a falta de algumas funções não altera a ordem das demais. O conto retoma a fila no ponto seguinte, como um leitor que pula capítulos sem embaralhar o livro.

A fila também pode correr duas vezes. Quando um segundo dano surge depois do primeiro reparado, Propp contava uma nova sequência, o movimento (cada ciclo completo, do dano à reparação); um conto longo encadeia dois ou três.

O mesmo raciocínio enxugou o elenco: as 31 funções se repartem entre sete esferas de ação (os papéis possíveis na trama), do vilão e do doador ao herói e ao falso herói.

A tese da ordem fixa foi a mais contestada. Em 1960, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss resenhou a tradução inglesa e acusou Propp de separar a forma do conteúdo. Propp respondeu em 1966, na edição italiana: tinha estudado um gênero só, e o título original, Morfologia do Conto de Magia, perdera as duas últimas palavras por decisão do editor.

O motivo da ordem ficou para outro livro. Em 1946, Propp ligou a fila a antigos ritos de iniciação (a passagem do jovem para a vida adulta, com afastamento da aldeia, provas e volta transformado), hipótese que segue em debate entre folcloristas.

Na fila de Propp, cada função tem posição fixa: um conto pode deixar várias de fora, e as que entram aparecem na ordem de origem.

 
 
 

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III  Na Oficina

O rascunho posto em fila

 
 

A fila de Propp serve de gabarito para qualquer narrativa curta: conto, crônica, roteiro, o caso que abre uma palestra. Para cada cena, a pergunta é a da definição de 1928: o que ela faz com a história. Quem age fica para depois.

O defeito mais comum aparece em quem foge da fórmula: a cena certa na posição errada. O herói ganha a ajuda mágica antes de existir o problema, e o leitor não sabe para que ela serve.

Um exemplo moderno mostra o efeito. Numa crônica sobre o primeiro emprego, o autor abre com o conselho do chefe veterano e só depois conta o erro grave da segunda semana. O conselho soa como sermão, porque o leitor ainda não viu o dano. Inverta as duas cenas e o mesmo conselho vira o presente do doador, entregue a quem já precisa dele.

Para conferir a ordem do seu enredo, cinco passos:

Passo a passo

 

1. Liste as cenas do seu texto numa coluna, uma por linha, na ordem em que aparecem.

2. Na frente de cada cena, anote em uma ou duas palavras o que ela faz com a história: dano, partida, prova, ajuda, combate, volta.

3. Compare a coluna com a fila de Propp e marque toda cena cuja função chega antes de outra que deveria vir primeiro.

4. Mova cada cena marcada para a posição da fila e releia as vizinhas: a costura entre elas pode pedir uma frase nova.

5. Apague a cena sem função nenhuma: a fila aceita saltos, e uma cena vazia só atrasa o passo seguinte.

 

O passo 2 pede disciplina. A tentação é anotar o assunto da cena, “o almoço com a mãe”, quando a pergunta é o que o almoço faz: se a mãe proíbe uma viagem, a cena é a proibição, e a viagem feita mesmo assim vira a transgressão.

O passo 3 aceita adaptação. A fila completa tem 31 itens, e um texto de três páginas usa poucos. Basta guardar a espinha presente em quase todo conto: dano ou carência, partida, prova e ajuda, confronto, reparação, volta.

O método tem limite: a fila descreve o conto de magia russo, e um romance psicológico pode contrariá-la sem defeito nenhum. A pergunta do passo 2 vale para qualquer gênero: cada cena precisa mover a história, e a posição dela decide se o leitor entende para quê.

Teste hoje: pegue um conto ou uma crônica sua com pelo menos seis cenas, faça a coluna dos passos 1 e 2 e conte as cenas fora da ordem da fila. Mova só essas e entregue as duas versões a dois leitores. Peça a cada um que diga, numa frase, o que o protagonista quer; o resultado esperado é uma resposta mais rápida e mais precisa de quem leu a versão reordenada.

 
 
 
 

Quiz da edição

No livro de 1928, de onde Propp tirou os cem contos de magia que ele analisou?

ADo índice de Antti Aarne, publicado em 1910
BDe uma pesquisa de campo feita pelo próprio Propp
CDos Contos Populares Russos, coletânea de Aleksandr Afanássiev
DDa tradução italiana da própria Morfologia do Conto

Resultado da última edição: 38% acertaram.

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