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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

1.000 Anos de Debate numa Página do Talmude de Vilna

Como a edição impressa em Vilna entre 1880 e 1886 pôs a lei antiga no centro e comentaristas de séculos depois nas margens da mesma folha.

Página do Talmude de Vilna, texto central cercado de comentários

A folha 2a de Berakhot, edição Romm

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Todo revisor de relatório já ouviu o pedido “Joga as observações pro fim, pra não poluir o texto”, e quase sempre ele custa a revisão inteira. Quem lê o anexo no fim não sabe mais a qual linha cada nota responde, e quem lê só o texto principal nem descobre a discordância.

Pense num contrato revisado por três advogados em três meses. O primeiro deixa comentários no documento compartilhado. O segundo responde ao primeiro. O terceiro chega depois, apaga os balões resolvidos e reescreve o parágrafo. Sobra um texto limpo e nenhuma pista de quem defendeu o quê.

Um livro resolveu o problema com diagramação, e resolveu tão bem a ponto de a solução virar norma. Entre 1880 e 1886, a gráfica da Viúva e Irmãos Romm, em Vilna, na atual Lituânia, imprimiu o Talmude Babilônico (a grande coletânea de debates rabínicos sobre a lei judaica) numa edição adotada como padrão pelas escolas religiosas do mundo inteiro.

Abra qualquer volume e a página tem um centro e um entorno. No centro, em letra grande, fica o texto antigo. Nas margens, em letra menor e com outro desenho, ficam comentaristas de séculos depois, cercando o miolo como alunos em volta de uma mesa.

Quem lê não precisa escolher entre o original e as notas. Os dois aparecem na mesma folha, cada voz no seu lugar, e o olho atravessa mil anos de discussão sem virar a página. Um rabino da Babilônia do século V e um comentarista da França do século XI respondem à mesma linha, a poucos centímetros um do outro.

A Romm não inventou o desenho. Herdou o arranjo de um impressor cristão de Veneza do século XVI e acrescentou camadas até a margem lotar. O mérito da edição de Vilna foi fixar cada peça num lugar previsível, e a previsibilidade fez a página durar.

A Desmontagem abre a folha inicial do tratado inicial e mostra quem fala em cada canto.

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I  A Desmontagem

A folha 2a de Berakhot

 
 

A resposta de ontem

Quem pagou a primeira tiragem do livro de Fannie Farmer?

A própria Fannie Farmer. A Little, Brown and Company duvidava da venda de um livro de cozinha e só aceitou publicar se a autora bancasse a impressão da primeira tiragem, de 3.000 exemplares, em 1896. Os exemplares se esgotaram, e a editora passou a reimprimir o livro por conta própria, edição após edição.

O Talmude Babilônico da edição Romm começa pelo tratado Berakhot (Bênçãos), e a página inicial dele leva o número 2a. A folha 1 é a de rosto. Cada folha tem frente e verso, chamados “a” e “b”, e quem cita o Talmude cita assim: Berakhot 2a, Shabat 31a.

No centro está a Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica), fechada perto de 200 d.C. na Galileia pelo rabino Judá, o Príncipe. Logo depois dela, no mesmo bloco, vem a Gemara (o debate dos rabinos sobre a Mishná), reunida nas academias da Babilônia até perto de 500 d.C.

O bloco central já é uma conversa. A Gemara registra opiniões de sábios separados por gerações, diz quem falou o quê e muitas vezes deixa a disputa sem vencedor. A página abre com uma dúvida da Mishná: desde quando, à noite, se recita o Shemá (a oração “Ouve, Israel”)?

A resposta vem na mesma linha. A recitação começa na hora em que os sacerdotes entram em casa para comer a terumá (a parte da colheita reservada a eles), ou seja, ao anoitecer. O limite fica em disputa: o rabino Eliezer diz até o fim da primeira vigília, os sábios dizem até a meia-noite, e Rabban Gamliel estende até o amanhecer.

Na margem interna, perto da lombada, corre o comentário de Rashi, sigla do rabino Shlomo Yitzchaki, que viveu entre 1040 e 1105 em Troyes, na França. Rashi explica a Gemara palavra por palavra e traduz termos difíceis, às vezes para o francês antigo da época.

Na margem externa ficam os Tosafot (“acréscimos”, em hebraico), notas escritas nos séculos XII e XIII por escolas da França e da Alemanha, várias delas fundadas por netos e discípulos de Rashi. Os Tosafot comparam trechos distantes do Talmude e, com frequência, discordam do próprio Rashi, impresso a poucos centímetros na mesma folha.

Nos cantos aparecem notas miúdas: o Ein Mishpat (“fonte do julgamento”), que remete aos códigos de lei, e o Torá Or (“a Torá é luz”), que indica de onde vem cada versículo citado. As duas foram compiladas pelo rabino Joshua Boaz, na Itália do século XVI.

A tipografia separa as vozes. O texto central sai em letra quadrada, a das Escrituras. Rashi e os Tosafot saem numa letra semicursiva, mais estreita, conhecida até hoje como “letra Rashi”, embora o próprio Rashi nunca a tenha usado: o nome veio dos impressores italianos.

A própria Gemara ensina a ler uma página onde todos discordam. No tratado Eruvin, depois de três anos de disputa entre a escola de Hillel e a de Shammai, uma voz do céu decide:

“Estas e aquelas são palavras do Deus vivo.”

Talmude Babilônico, tratado Eruvin, folha 13b, perto de 500 d.C.

 

A decisão não apaga o perdedor. Na mesma passagem, a lei segue a escola de Hillel, e o texto dá o motivo: os alunos de Hillel ensinavam a opinião rival antes da própria. A opinião de Shammai continua impressa, na mesma página.

 

Na página de Vilna, cada voz tem endereço fixo, e a discordância fica impressa a centímetros da opinião contestada.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

Veneza fixou o endereço

 
 

O desenho da página nasceu antes de Vilna, em gráficas italianas. A família Soncino, de impressores judeus, publicou tratados avulsos do Talmude a partir de 1484 e já punha Rashi e os Tosafot cercando o texto central.

Entre 1520 e 1523, em Veneza, o impressor cristão Daniel Bomberg, nascido em Antuérpia, publicou o primeiro Talmude Babilônico completo. Bomberg manteve o arranjo dos Soncino e fixou a paginação: cada trecho passou a cair na mesma folha, frente ou verso, em todas as reimpressões seguintes.

A paginação de Bomberg explica por que a citação “Berakhot 2a” vale igual em Varsóvia, em Nova York ou em Jerusalém. Um estudante de 1890 e um de hoje abrem o mesmo endereço e encontram as mesmas linhas no mesmo canto.

A Romm entrou na história no século XIX. A gráfica funcionava em Vilna desde o fim do século XVIII e passou ao comando de Devorah Romm, viúva de David Romm, que dirigiu a edição com os cunhados. Daí o nome na folha de rosto: Viúva e Irmãos Romm.

Para a edição de 1880 a 1886, a Romm pôs revisores para comparar manuscritos e edições antigas e corrigir erros acumulados em três séculos de cópia. Também acrescentou comentários de autores mais recentes, nas bordas e no fim de cada volume, entre eles as notas do Gaon de Vilna, o rabino Eliyahu ben Shlomo Zalman, que viveu no século XVIII.

O centro não mudou. A Mishná e a Gemara continuaram no miolo, Rashi continuou na margem de dentro, os Tosafot na de fora. As camadas novas entraram nas bordas e nos apêndices, sem empurrar ninguém do lugar herdado de Veneza.

A estabilidade criou um hábito coletivo. Em 1923, no congresso da organização Agudath Israel em Viena, o rabino Meir Shapiro propôs o Daf Yomi (“a folha do dia”): estudantes do mundo inteiro leem a mesma folha na mesma data. O ciclo cobre 2.711 folhas e leva perto de sete anos e meio.

A proposta só funciona porque a folha 2a de Berakhot é igual em toda parte. Sem a paginação fixa de Veneza e a edição estável de Vilna, cada grupo estaria numa página diferente do mesmo assunto.

A ideia de uma corrente de vozes está escrita na própria Mishná, no tratado Avot, que abre com a transmissão do ensino:

“Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu a Josué, Josué aos anciãos, os anciãos aos profetas.”

Mishná, tratado Avot 1:1, perto de 200 d.C.

 

A página de Vilna dá forma visível a essa corrente. Cada elo ocupa o seu anel, do centro para fora, e o leitor enxerga a ordem de chegada pela posição na folha: o texto mais antigo no miolo, o comentário mais novo na borda.

 

A edição Romm durou porque acrescentou camadas sem mexer no endereço de nenhuma voz antiga.

 
 

Quem banca a edição de hoje

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III  Na Oficina

Margem com dono

 
 

Quem escreve sobre o texto de outra pessoa enfrenta o problema dos impressores de Vilna: revisão de contrato, parecer sobre um projeto, resumo comentado de um livro, ata com objeções. O leitor precisa saber, a cada linha, se está lendo o original ou o comentário, e quem assinou o comentário.

O erro comum aparece de dois jeitos. No primeiro, o revisor reescreve o original e some com a versão anterior. No segundo, empurra as notas para um anexo no fim, e a nota perde a linha a qual respondia.

A página do Talmude mostra três regras de diagramação úteis fora dele:

• O original fica intacto e no centro: ninguém reescreve a Mishná para caber o comentário.

• Cada comentarista tem lugar fixo e aparência própria, e o leitor reconhece quem fala pelo desenho da letra.

• Toda nota aponta o trecho exato: Rashi abre cada comentário com o dibur hamatchil (“a fala de abertura”), as palavras da Gemara às quais ele responde.

Num documento digital, as três regras cabem em recursos comuns. O modo de sugestão preserva o original, a cor ou a sigla identifica o revisor, e o comentário ancorado prende a nota à frase.

Para aplicar num parecer escrito, siga quatro passos:

Passo a passo

 

1. Cole o texto original sem mudar nenhuma vírgula e numere os parágrafos.

2. Escreva cada comentário abaixo do parágrafo comentado, começando pelas três ou quatro palavras do original às quais ele responde.

3. Marque cada nota com a sigla de quem escreveu e a data.

4. Se um segundo revisor discordar, ele escreve abaixo da nota do primeiro, sem apagar a anterior.

 

Um exemplo. Nota solta no fim do parecer: “O prazo da cláusula 4 está curto.” Nota ancorada: “‘entrega em 15 dias’: prazo curto para obra com licença municipal; sugiro 45 dias. M.S., 16/10.” A segunda diz a linha, o autor e a data.

A discordância do segundo revisor, escrita logo abaixo, mostra ao leitor final os dois argumentos, como os Tosafot fazem com Rashi. Quem decide lê o debate inteiro, e não só a última versão.

Os editores de Vilna acomodaram mil anos de vozes com posição, letra e citação de abertura. Um parecer de duas páginas se organiza com os mesmos três recursos.

“Em qual documento seu a última revisão apagou a voz da primeira?”

 

Teste hoje: pegue o último texto revisado por você para outra pessoa e conte quantos comentários seus não citam as palavras do trecho comentado. Reescreva esses comentários abrindo com as três primeiras palavras do original. Mostre a versão nova ao autor; o resultado esperado é zero perguntas do tipo “essa nota é sobre qual parte?”.

 
★ RARO

🔒

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Quem leu até aqui tem mais um achado desta edição atrás do lacre.

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Quiz da edição

Quem propôs o Daf Yomi, o ciclo que faz estudantes do mundo inteiro lerem a mesma folha do Talmude na mesma data, e onde a proposta aconteceu?

ADaniel Bomberg, em Veneza, ao publicar o primeiro Talmude completo
BO Gaon de Vilna, nas notas que acrescentou à margem
CO rabino Meir Shapiro, no congresso da Agudath Israel em Viena
DDevorah Romm, ao assumir a gráfica em Vilna

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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