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I A Desmontagem
Duas cópias, dois pedintes
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O Tratado de Kadesh foi firmado em 1259 a.C., no 21º ano do reinado de Ramsés II, entre o faraó e Hattusili III, irmão e sucessor de Muwatalli no trono hitita. É um dos tratados de paz mais antigos cujo texto completo chegou até nós, e chegou duas vezes, por caminhos diferentes.
O original não sobreviveu. Era uma placa de prata, levada ao Egito por emissários hititas, com os selos do rei e da rainha Puduhepa gravados no metal. Nenhuma escavação encontrou a placa; o mais provável é que a prata tenha sido fundida séculos depois. O que se conhece dela vem da descrição que os próprios egípcios deixaram.
A versão egípcia está esculpida em hieróglifos em duas paredes: no templo de Karnak, em Tebas, e no Ramesseum, o templo funerário de Ramsés. O texto data a chegada dos mensageiros hititas à cidade de Pi-Ramsés, a capital no delta do Nilo, e descreve a placa de prata antes de copiar as cláusulas.
A versão hitita ficou enterrada até 1906. Naquele ano, o arqueólogo alemão Hugo Winckler escavava Hattusa, a antiga capital hitita, perto da atual Boğazkale, na Turquia, e encontrou tábuas de barro em acádio com o mesmo acordo. Uma delas está no Museu Arqueológico de Istambul, e uma réplica foi dada pela Turquia à sede da ONU, em Nova York, em 1970.
O acádio era a língua da Mesopotâmia, escrita em cuneiforme (sinais em forma de cunha apertados no barro mole), e servia às cortes do Oriente Próximo como idioma neutro de diplomacia. Nenhum dos dois reis falava acádio em casa. Os escribas de cada palácio redigiam e liam nele.
Postas lado a lado, as duas versões repetem as obrigações quase na mesma ordem. Uma das frases centrais, na tradução da versão egípcia, diz assim:
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“Haverá entre nós paz boa e fraternidade boa, para sempre.”
Tratado de Kadesh, versão egípcia, templo de Karnak, 1259 a.C.
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A troca acontece no preâmbulo (a abertura que apresenta as partes antes das cláusulas). No texto de Karnak, é o “grande chefe de Hatti” quem manda a placa para pedir paz ao faraó. Nas tábuas de Hattusa, a iniciativa sai do Egito: Ramsés é quem procura Hattusili.
Os dois preâmbulos também tratam o outro rei com cuidado diferente. O texto egípcio dá a Ramsés os títulos completos e chama o hitita de chefe. O texto hitita chama Ramsés de grande rei, mas o põe no papel de quem precisava do acordo.
Nenhuma das duas versões altera fronteira, prazo ou obrigação. Muda só a linha onde se lê quem estendeu a mão.
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O Tratado de Kadesh mantém as cláusulas iguais nas duas línguas e troca apenas o sujeito do pedido.
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II A Engrenagem
O trono tomado em Hattusa
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Os dois reis precisavam do acordo, e por motivos que nenhum preâmbulo podia confessar. Hattusili III tinha chegado ao trono por um golpe: perto de 1267 a.C., derrubou o sobrinho Urhi-Teshub, que reinava com o nome de Mursili III e era filho de Muwatalli.
Urhi-Teshub foi exilado, escapou e acabou se refugiando no Egito. Um rei deposto, abrigado pelo inimigo, era a pior ameaça possível para quem ocupava o trono de Hattusa. Daí o peso da cláusula de extradição (a devolução de fugitivos ao país de origem), presente nas duas versões.
O tratado também promete apoio à sucessão: se alguém se levantar contra o herdeiro escolhido por Hattusili, o Egito manda tropas. Para um rei que tomou a coroa à força, a garantia valia mais que qualquer pedaço de território.
Havia um terceiro jogador. No leste, a Assíria do rei Salmanasar I tinha conquistado Hanigalbat, o antigo reino de Mitanni, e encostado na fronteira hitita. Brigar com o Egito no sul e com a Assíria no leste ao mesmo tempo esgotaria o exército.
Ramsés tinha outra pressa. A guerra pela Síria se arrastava havia décadas, sem vitória definitiva, e consumia homens e cavalos. Uma fronteira estável na região de Amurru, no litoral do atual Líbano, deixava o faraó livre para as obras que encheram o Egito com o nome dele.
A cláusula dos fugitivos traz um detalhe raro para a época. Quem fosse devolvido não podia ser punido, e a proteção alcançava a família inteira:
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“Que não se levante contra ele o seu crime; que não se destrua a sua casa, nem as suas mulheres, nem os seus filhos.”
Tratado de Kadesh, versão egípcia, Ramesseum, 1259 a.C.
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Com tanto interesse em jogo, os escribas não arriscaram as cláusulas.
Cada lado escreveu o preâmbulo para quem ia ler em casa. No Egito, o texto subiu às paredes dos templos, onde sacerdotes e visitantes viam o faraó como vencedor que concede a paz. Em Hattusa, as tábuas ficaram nos arquivos do palácio, onde a corte via o rei hitita como o grande rei procurado pelo Egito.
O acordo funcionou. A rainha Puduhepa passou a trocar cartas diretamente com Ramsés, e os dois reis se tratavam por “irmão” na correspondência. Nenhuma guerra entre egípcios e hititas foi registrada depois de 1259 a.C.
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Cada preâmbulo foi escrito para a plateia de casa, e as cláusulas, para os dois reis cumprirem.
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