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O Pedido de Paz com 2 Autores no Tratado de Kadesh

Como o acordo de 1259 a.C. entre Ramsés II e os hititas saiu em hieróglifo e em acádio, e cada versão pôs o pedido na boca do rival.

Tábua de barro em acádio com o Tratado de Kadesh, achada em Hattusa

A versão hitita do tratado, em barro

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Toda ata de negociação difícil traz a frase “Foram eles que nos procuraram”, e quase sempre é ela que azeda o acordo na semana seguinte. Quem lê pelo lado oposto da mesa se vê no papel de pedinte e passa a procurar um jeito de desfazer o que assinou.

Pense numa fusão entre duas empresas do mesmo porte. O comunicado de uma diz que a outra bateu à porta. O comunicado da outra diz o contrário. Os dois textos trazem as mesmas cláusulas, os mesmos prazos, as mesmas multas. Só o primeiro parágrafo muda, e é ele que os funcionários de cada empresa leem com atenção.

O truque tem mais de três mil anos e foi gravado em pedra. Na Síria de hoje, às margens do rio Orontes, o faraó Ramsés II e o rei hitita Muwatalli II se enfrentaram na cidade de Kadesh, em 1274 a.C., com milhares de carros de guerra. Nenhum dos dois tomou o território do outro. Ramsés voltou para casa e mandou esculpir nos templos uma vitória completa.

Quinze anos depois, os dois impérios assinaram a paz. O acordo saiu em duas línguas e duas escritas. No Egito, foi para as paredes dos templos, em hieróglifos. Na capital hitita, ficou guardado em tábuas de barro, em acádio, o idioma da diplomacia daquele tempo.

As cláusulas batem quase linha por linha: ninguém invade ninguém, um socorre o outro contra inimigo comum, fugitivos voltam para casa sem castigo. O que não bate é a cena de abertura. Na versão egípcia, o rei hitita implora pela paz. Na versão hitita, quem implora é o faraó.

Nenhum dos redatores falsificou o que foi combinado. Os dois mexeram só em quem deu o primeiro passo, e esse detalhe bastou para que cada povo lesse o mesmo tratado como prova da própria vitória. Os escribas sabiam o que o leitor de casa procura primeiro num acordo: quem cedeu.

A faixa I põe as duas versões frente a frente e mostra, frase a frase, onde o pedido muda de dono.

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I  A Desmontagem

Duas cópias, dois pedintes

 
 

O Tratado de Kadesh foi firmado em 1259 a.C., no 21º ano do reinado de Ramsés II, entre o faraó e Hattusili III, irmão e sucessor de Muwatalli no trono hitita. É um dos tratados de paz mais antigos cujo texto completo chegou até nós, e chegou duas vezes, por caminhos diferentes.

O original não sobreviveu. Era uma placa de prata, levada ao Egito por emissários hititas, com os selos do rei e da rainha Puduhepa gravados no metal. Nenhuma escavação encontrou a placa; o mais provável é que a prata tenha sido fundida séculos depois. O que se conhece dela vem da descrição que os próprios egípcios deixaram.

A versão egípcia está esculpida em hieróglifos em duas paredes: no templo de Karnak, em Tebas, e no Ramesseum, o templo funerário de Ramsés. O texto data a chegada dos mensageiros hititas à cidade de Pi-Ramsés, a capital no delta do Nilo, e descreve a placa de prata antes de copiar as cláusulas.

A versão hitita ficou enterrada até 1906. Naquele ano, o arqueólogo alemão Hugo Winckler escavava Hattusa, a antiga capital hitita, perto da atual Boğazkale, na Turquia, e encontrou tábuas de barro em acádio com o mesmo acordo. Uma delas está no Museu Arqueológico de Istambul, e uma réplica foi dada pela Turquia à sede da ONU, em Nova York, em 1970.

O acádio era a língua da Mesopotâmia, escrita em cuneiforme (sinais em forma de cunha apertados no barro mole), e servia às cortes do Oriente Próximo como idioma neutro de diplomacia. Nenhum dos dois reis falava acádio em casa. Os escribas de cada palácio redigiam e liam nele.

Postas lado a lado, as duas versões repetem as obrigações quase na mesma ordem. Uma das frases centrais, na tradução da versão egípcia, diz assim:

“Haverá entre nós paz boa e fraternidade boa, para sempre.”

Tratado de Kadesh, versão egípcia, templo de Karnak, 1259 a.C.

 

A troca acontece no preâmbulo (a abertura que apresenta as partes antes das cláusulas). No texto de Karnak, é o “grande chefe de Hatti” quem manda a placa para pedir paz ao faraó. Nas tábuas de Hattusa, a iniciativa sai do Egito: Ramsés é quem procura Hattusili.

Os dois preâmbulos também tratam o outro rei com cuidado diferente. O texto egípcio dá a Ramsés os títulos completos e chama o hitita de chefe. O texto hitita chama Ramsés de grande rei, mas o põe no papel de quem precisava do acordo.

Nenhuma das duas versões altera fronteira, prazo ou obrigação. Muda só a linha onde se lê quem estendeu a mão.

 

O Tratado de Kadesh mantém as cláusulas iguais nas duas línguas e troca apenas o sujeito do pedido.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

O trono tomado em Hattusa

 
 

Os dois reis precisavam do acordo, e por motivos que nenhum preâmbulo podia confessar. Hattusili III tinha chegado ao trono por um golpe: perto de 1267 a.C., derrubou o sobrinho Urhi-Teshub, que reinava com o nome de Mursili III e era filho de Muwatalli.

Urhi-Teshub foi exilado, escapou e acabou se refugiando no Egito. Um rei deposto, abrigado pelo inimigo, era a pior ameaça possível para quem ocupava o trono de Hattusa. Daí o peso da cláusula de extradição (a devolução de fugitivos ao país de origem), presente nas duas versões.

O tratado também promete apoio à sucessão: se alguém se levantar contra o herdeiro escolhido por Hattusili, o Egito manda tropas. Para um rei que tomou a coroa à força, a garantia valia mais que qualquer pedaço de território.

Havia um terceiro jogador. No leste, a Assíria do rei Salmanasar I tinha conquistado Hanigalbat, o antigo reino de Mitanni, e encostado na fronteira hitita. Brigar com o Egito no sul e com a Assíria no leste ao mesmo tempo esgotaria o exército.

Ramsés tinha outra pressa. A guerra pela Síria se arrastava havia décadas, sem vitória definitiva, e consumia homens e cavalos. Uma fronteira estável na região de Amurru, no litoral do atual Líbano, deixava o faraó livre para as obras que encheram o Egito com o nome dele.

A cláusula dos fugitivos traz um detalhe raro para a época. Quem fosse devolvido não podia ser punido, e a proteção alcançava a família inteira:

“Que não se levante contra ele o seu crime; que não se destrua a sua casa, nem as suas mulheres, nem os seus filhos.”

Tratado de Kadesh, versão egípcia, Ramesseum, 1259 a.C.

 

Com tanto interesse em jogo, os escribas não arriscaram as cláusulas.

Cada lado escreveu o preâmbulo para quem ia ler em casa. No Egito, o texto subiu às paredes dos templos, onde sacerdotes e visitantes viam o faraó como vencedor que concede a paz. Em Hattusa, as tábuas ficaram nos arquivos do palácio, onde a corte via o rei hitita como o grande rei procurado pelo Egito.

O acordo funcionou. A rainha Puduhepa passou a trocar cartas diretamente com Ramsés, e os dois reis se tratavam por “irmão” na correspondência. Nenhuma guerra entre egípcios e hititas foi registrada depois de 1259 a.C.

 

Cada preâmbulo foi escrito para a plateia de casa, e as cláusulas, para os dois reis cumprirem.

 
 

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III  Na Oficina

O primeiro verbo do acordo

 
 

Todo texto que anuncia um acordo entre duas partes (a parceria, a fusão, o fim de uma briga de condomínio) passa pelo dilema dos escribas de 1259 a.C.: quem aparece como sujeito do primeiro verbo. Quem procurou, quem propôs, quem aceitou. O leitor decide quem ganhou ali, antes de chegar às cláusulas.

O sujeito do primeiro verbo carrega a iniciativa. “A empresa X procurou a Y” põe a Y em vantagem. “A Y aceitou a proposta da X” põe a X no papel de quem pediu. As mesmas palavras, com o sujeito trocado, contam histórias opostas para cada lado da mesa.

Os egípcios e os hititas resolveram o dilema com duas versões, cada uma para um público. Quem escreve um comunicado só não tem essa saída: o mesmo texto chega às duas partes. Sobram três posições para o sujeito:

• As duas partes juntas: “X e Y assinaram um acordo.”

• O fato no lugar das pessoas: “O acordo entre X e Y foi assinado em 3 de março.”

• O objetivo comum: “Para encerrar a disputa sobre o terreno, X e Y fecharam um acordo.”

As três deixam a iniciativa sem dono, e nenhuma esconde informação. Quem precisa saber quem propôs pode ler no parágrafo seguinte, se o dado importar.

Para aplicar, siga quatro passos:

Passo a passo

 

1. Copie a primeira frase do seu anúncio e sublinhe o sujeito do primeiro verbo.

2. Pergunte se a outra parte assinaria aquela frase sem incômodo.

3. Se a resposta for não, troque o sujeito por uma das três posições acima.

4. Releia o resto do texto atrás de outros verbos de pedido (procurou, pediu, solicitou) e aplique a mesma troca.

 

Um exemplo. Versão de um lado só: “A Construtora Alfa procurou a Beta para dividir a obra do hospital.” Versão para os dois lados: “A Alfa e a Beta vão dividir a obra do hospital, com entrega prevista para dezembro.” A segunda frase tem a mesma informação útil e não põe ninguém de joelhos.

Os escribas de Kadesh precisaram de duas paredes e duas línguas para que cada rei saísse vencedor. Um comunicado bem escrito consegue o mesmo efeito numa versão só, quando o primeiro verbo pertence aos dois.

“Qual acordo seu começou com um verbo de pedido na primeira frase?”

 

Teste hoje: pegue o último email em que você anunciou um acordo, uma parceria ou o fim de uma disputa. Sublinhe o sujeito de cada verbo de pedido e conte quantos apontam para um lado só. Reescreva até a conta chegar a zero e mostre a versão nova a alguém da outra parte; a resposta esperada é nenhuma correção sobre quem procurou quem. Agora, uma curiosidade sobre o desfecho dos dois reis.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Com quem Ramsés II se casou, 13 anos depois do tratado, para selar a paz com os hititas?

 
 
 
Quiz da edição

Em que ano o arqueólogo alemão Hugo Winckler encontrou as tábuas hititas do Tratado de Kadesh em Hattusa?

A1874
B1906
C1935
D1970

Resultado da última edição: 57% acertaram.

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