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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

As Legendas Piratas de Watchmen, 1986

Como um gibi de piratas lido numa banca de Nova York empresta as legendas à rua, sem trocar uma palavra.

Esquina de Nova York com banca de jornal e um garoto lendo gibi

A banca de jornal de Watchmen, 1986

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Todo roteirista de quadrinhos ouve a mesma regra na primeira oficina: “A legenda explica o que o desenho mostra.” Foi a regra que encheu milhares de páginas de frase repetida. O desenho mostra um homem correndo, e a caixa de texto avisa que o homem corre.

Em Watchmen, a série em 12 capítulos que a DC Comics começou a lançar em setembro de 1986, a legenda trabalha contra a regra. Ela conta uma cena, e o desenho embaixo mostra outra.

Numa esquina de Nova York, um garoto senta encostado num hidrante, ao lado de uma banca de jornal, e lê um gibi de piratas. O jornaleiro fala de guerra nuclear com todo freguês que passa. O garoto não responde a ninguém.

O leitor lê junto com ele. As caixas de texto do gibi descem sobre os quadros da rua, com a cor amarelada do papel barato. Falam de um navio afundado, de um marinheiro sozinho no mar, de corpos boiando ao redor dele.

Embaixo das caixas, o desenhista pôs a banca, as manchetes, os carros parados e o jornaleiro gesticulando. Nenhum pirata aparece nesses quadros. Nenhuma onda também.

Mesmo assim, a frase do naufrágio serve à rua. O marinheiro teme pelo fim da própria cidade; a banca vende manchetes sobre o fim de todas as cidades. Nenhuma palavra muda de um plano para o outro, e o sentido dobra.

Quem escreve prosa tem a mesma ferramenta à mão, e quase nunca usa. Um parágrafo pode contar uma ação enquanto a frase seguinte descreve outra, e o leitor faz a soma sozinho, sem aviso.

O truque tem peças contáveis: quem fala, de onde vem o texto, o que o desenho mostra, e o ponto exato em que as duas histórias encostam. Cada peça pode ser copiada numa crônica, num conto ou num relatório.

A Desmontagem abre a página da banca e separa as três camadas que dividem o mesmo quadro: a caixa do gibi, o desenho da rua e o balão do jornaleiro.

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Quem banca a edição de hoje

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I  A Desmontagem

Três camadas no mesmo quadro

 
 

Watchmen foi escrita por Alan Moore, desenhada por Dave Gibbons e colorida por John Higgins. Saiu em 12 edições mensais entre 1986 e 1987 e foi reunida em livro em 1987.

A história se passa num 1985 inventado, em que heróis mascarados existiram de fato e os Estados Unidos venceram no Vietnã. Nesse mundo, gibi de super-herói perdeu a graça: quem cruza com um vigilante na esquina não compra o inventado. As bancas vendem histórias de piratas.

O gibi que o garoto lê se chama Tales of the Black Freighter (Contos do Cargueiro Negro). Ele aparece a partir do terceiro capítulo, The Judge of All the Earth (O Juiz de Toda a Terra), e volta em capítulos seguintes até o décimo primeiro.

O nome do navio vem do teatro. Na Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, de 1928, uma criada de hotel sonha com o navio pirata que vai cobrar a cidade inteira. A canção Seeräuber-Jenny (Jenny dos Piratas) diz: “Und ein Schiff mit acht Segeln und mit fünfzig Kanonen wird liegen am Kai” (e um navio com oito velas e cinquenta canhões estará ancorado no cais). Na versão em inglês de Marc Blitzstein, de 1954, o navio ganhou o nome de black freighter (cargueiro negro).

A página da banca tem três camadas de texto e imagem, e cada uma tem uma cor própria.

A primeira é a caixa do gibi. Ela traz a voz do marinheiro, em primeira pessoa, sobre um fundo de papel envelhecido. O formato avisa ao leitor que aquelas palavras vêm de dentro de outra revista.

A segunda é o desenho. Gibbons mantém a câmera na esquina: a banca, o hidrante, o garoto, a calçada. A rua não sabe de naufrágio nenhum.

A terceira são os balões do jornaleiro. Ele comenta a crise com a União Soviética, reclama dos fregueses, discute com quem passa. Os balões falam do mundo real da história, e as caixas, do mar inventado.

Moore costura as três sem transição. Quando o quadro mostra o rosto do garoto, o leitor sabe de onde vem o texto. Quando o quadro se abre para a rua, a caixa continua a mesma frase e passa a comentar o que se vê.

O marinheiro conta que é o único sobrevivente de um ataque do Cargueiro Negro. Quer chegar a Davidstown, sua cidade, antes do navio, para avisar a família. Sem bote, amarra os corpos dos companheiros a destroços e faz deles uma jangada.

Lida sozinha, a cena é horror de pirata. Lida sobre a banca, onde as manchetes anunciam a guerra, vira retrato de uma cidade que espera o desastre e continua comprando jornal.

Em Watchmen, a caixa de texto e o desenho contam cenas diferentes no mesmo quadro, e o sentido nasce do encontro entre as duas.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

O marinheiro e o homem da torre

 
 

A técnica tem nome emprestado da música: contraponto (duas melodias tocadas ao mesmo tempo, cada uma inteira, que soam juntas). Em Watchmen, uma melodia é o gibi; a outra, a rua.

O contraponto funciona porque cada linha se sustenta sozinha. A história do marinheiro tem começo, meio e fim. A rua também. O leitor nunca precisa da outra para entender a frase que tem diante dos olhos.

O fim do marinheiro dá a chave do livro inteiro. Ele chega à costa convencido de que os piratas já tomaram Davidstown. Ataca um casal na estrada, achando que são cúmplices do navio. De noite, entra na própria casa e golpeia a mulher no escuro, certo de que enfrenta um invasor.

Quando reconhece o rosto dela, foge para a praia. O Cargueiro Negro está ancorado ali, à espera. Ele nada até o navio e sobe a bordo. A tripulação o recebe como um dos seus.

Na trama principal, Adrian Veidt, ex-herói chamado Ozymandias e dono de uma fortuna, também quer salvar o próprio povo. Para frear a guerra nuclear, ele encena um ataque de criatura alienígena que destrói metade de Nova York. A banca da esquina está no raio da explosão.

O jornaleiro e o garoto ficam lado a lado nos últimos quadros do capítulo 11. Pouco antes, descobrem que os dois se chamam Bernard. A explosão apaga a esquina com ambos.

No capítulo 12, Veidt conta um sonho: nadava em direção a um navio negro e terrível. É o mesmo gesto do marinheiro, na boca do homem que acabou de destruir a cidade para protegê-la.

O leitor atento já tinha a resposta. Desde o terceiro capítulo, as caixas do gibi contavam a história de um homem que vira a ameaça que temia. O contraponto escondeu o desfecho à vista, em cima da banca.

Daí sai o princípio de hoje. Quando a frase e a imagem contam cenas diferentes com o mesmo tema, o leitor faz a soma, e a conclusão que ele tira sozinho pesa como descoberta dele.

A regra tem duas condições. A primeira: as duas cenas dividem um tema concreto, aqui o medo do fim. A segunda: uma frase de cada vez precisa servir às duas, sem palavra trocada. Se a frase só cabe numa cena, o leitor sente o corte e a costura aparece.

Moore e Gibbons trabalharam assim página por página. Gibbons contou em Watching the Watchmen, livro de 2008 sobre a criação da série, que o roteiro de Moore descrevia cada quadro em detalhe, com as caixas já escritas. O encaixe entre texto e desenho saía planejado do roteiro, nunca por acaso na prancheta.

Para o contraponto funcionar, cada linha conta uma história inteira, e as duas dividem um tema que o leitor reconhece.

 
 
 

Quem banca a edição de hoje

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III  Na Oficina

Duas cenas numa frase só

 
 

A prosa não tem caixa de texto amarela, mas tem o parágrafo. Uma cena pode correr em primeiro plano enquanto outra, vinda de um rádio, de uma carta ou de uma lembrança, entra em frases alternadas.

Um exemplo de crônica. Uma mulher espera notícia na sala de um hospital. A televisão da parede dá a previsão do tempo. A frase da televisão: “A frente fria chega à noite, e ninguém sabe ainda a força dela.” Sem trocar uma palavra, a frase serve ao céu e ao médico que ainda não saiu da sala.

O mesmo vale fora da ficção. Um relatório sobre uma fábrica que perde clientes pode intercalar a ata da reunião com a voz da secretária lendo os pedidos cancelados em voz alta. O leitor junta as duas sem precisar de conclusão no fim.

Para montar um contraponto num texto seu, quatro passos:

Passo a passo

 

1. Escolha uma cena do seu texto com uma ação simples: alguém espera, arruma uma mala, atravessa a rua.

2. Escreva à parte uma segunda cena com o mesmo tema e outro cenário: um rádio, um livro que o personagem lê, uma conversa ouvida na mesa ao lado.

3. Alterne as frases, uma de cada cena, sem conectivo e sem explicar a ligação.

4. Releia e corte toda frase da segunda cena que só serve a ela. Fica a frase que cabe nos dois planos sem trocar palavra.

 

O passo 4 é o mais difícil, e é ele que Moore cumpria no roteiro. Uma frase da segunda cena que não toca a primeira vira enfeite, e o leitor percebe o enfeite antes do autor.

Cuidado com a dose. Em Watchmen, o gibi pirata ocupa poucas páginas por capítulo e some quando a trama principal precisa de toda a atenção. Num conto, duas ou três frases intercaladas bastam; num relatório, uma.

Teste hoje: pegue um parágrafo de seis frases que você já escreveu e intercale três frases de uma segunda cena com o mesmo tema. Mostre a alguém sem explicar nada e peça um resumo numa frase. Se a pessoa citar as duas cenas juntas, o contraponto funcionou; se citar só uma, corte a segunda cena até sobrar a frase que serve às duas e repita o teste.

 
 
 

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No texto, de onde vem o nome do navio Cargueiro Negro, que dá título ao gibi lido na banca?

ADe um romance de piratas do século XIX
BDe uma canção da Ópera dos Três Vinténs, de Brecht e Weill
CDe uma expressão naval usada na Guerra do Vietnã
DDe uma lenda popular sobre naufrágios em Nova York

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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